O livro de Steve Hindy é o melhor relato da história do mercado craft norte-americano.

Foto: Carlos Felipe

 
 

Por Victor Kling

Da guerra no Oriente Médio à Revolução pela cerveja. Steve Hindy foi um dos cofundadores da cervejaria norte-americana Brooklyn Brewery. Jornalista de profissão, foi correspondente da agência de notícias, Associated Press (AP) no Oriente Médio. Foi quando a guerra estourou no Líbano, que ele quase viu sua vida acabar, decidindo assim voltar para Nova York.

Hindy esteve no epicentro da ebulição cervejeira dos EUA, e assistiu com os próprios olhos o alvorecer deste mercado, que é hoje, exemplo para todo o mundo. Sua vasta experiência como jornalista, homebrewer e dono de cervejaria foram fundamentais para embasar a escrita do livro “A Revolução da Cerveja Artesanal”, que é um denso relato da história da cerveja artesanal nos Estados Unidos.

Fritz Maytag – Considerado o pioneiro do mercado americano ao adquirir a Anchor Brewing da California nos anos 70.

Somos convidados a passear pelos primórdios do mercado, onde são narrados feitos importantes, dos chamados “pioneiros”, como Ken Grossman, da Sierra Nevada, e de Fritz Maytag, que comprou em 1965 a então falida e decadente cervejaria Anchor, fundada em 1896. Ele a restaurou, visando fazer frente à Miller, Coors e Bud, que à época seguiam angariando adeptos por todos os lados.

Analisando retrospectivamente os fatos, Hindy encontra nesse feito, importância suficiente para afirmar que Maytag foi “o precursor da microfabricação”, uma espécie de pai das microcervejarias modernas.

Sam Calagione, co-fundador da Dogfish Head pertence a geração dos anos 1990.

O texto segue, cronologicamente, passando pelos principais capítulos da história cervejeira dos EUA, e temos a oportunidade de conhecer a história de figuras importantes da indústria, como Jim Koch e sua Boston Beer Company, fundada em 1984, e mundialmente famosa pela Samuel Adams “Boston Lager”. Mais à frente, já na década de 1990, podemos saber como foi o processo de criação da Dogfish Head, por Sam Calagione, em 1995.

Hindy vai contextualizando tudo isso com os processos políticos e burocráticos ocorridos no meio, passando pela criação das principais mídias especializadas, festivais e associações de cervejeiros. O autor termina oferecendo um perfil resumido das principais marcas de cerveja norte-americanas, até a época da produção do livro.

Semelhanças entre evolução do mercado de cerveja artesanal nos EUA e no Brasil

Ao avançar pelas páginas, é notável como a revolução craft estadounidense se assemelha em diversos aspectos com a brasileira. Comparando a parte histórica narrada pelo filme “O Petroleum é nosso”, produzido pela Dum Cervejaria, com o livro de Hindy, podemos perceber certos padrões no processo das duas “revoluções”.

O filme traz um breve panorama de como tem sido o desenvolvimento da cena cervejeira nacional. É possível perceber, por exemplo, como o começo de tudo se deu através do movimento homebrew, que por sua vez impulsionou a criação das primeiras fábricas, que tinham por objetivo “lutar” por uma melhor cerveja, indo de encontro à cerveja comercial de “massa”.

O aumento progressivo do número de cervejarias, com o passar dos anos, a criação de associações de cervejeiros caseiros e agremiações de cervejarias, a profissionalização do setor e a adoção de práticas comerciais modernas, foram apenas mais algumas das constantes encontradas nos processos “revolucionários” dos dois países.

Steve Hindy – co-fundador da Brooklyn Brewery e autor do livro.

O livro oferece assim uma excelente leitura, chamando para a reflexão. Foge ao padrão dos clássicos livros técnicos de elaboração de cerveja, ou dos famosos almanaques/guias, que dominam as prateleiras de literatura cervejeira.

Apesar de denso, e com muitas informações, é bastante didático, portanto fácil de ser “processado”. Trata-se de uma obra-prima, de leitura obrigatória para todo cervejeiro profissional, que tem potencial para agradar aos entusiastas das cervejarias e cervejas norte-americanas.