5 Motivos para explicar porque a cerveja artesanal não é uma moda passageira

O fenômeno global do que chamamos de cerveja artesanal tem fundamentos muito sólidos. Um movimento iniciado nos EUA nos anos 1970 ganhou o mundo e têm crescido no ao redor do planeta por alguns motivos que você conhecerá nesse artigo.

A retomada da produção de cerveja por pequenos produtores, em regiões fora da tradição secular cervejeira europeia é um movimento que se iniciou nos Estados Unidos no final dos anos 1960.

Especialistas apontam como fato marcador de início desse movimento a compra da cervejaria Anchor Brewing pelo empresário Fritz Maytag em 1965, quando esta estava a beira da falência e resistiu, iniciando um crescimento de sua produção.

A partir deste evento, uma série de empreendedores se inspiraram na história da Anchor e passaram a montar suas próprias cervejarias, contrariando um mercado homogeneizado e oligopolizado, tornando este fenômeno uma das maiores transformações de qualquer indústria no mundo dos últimos 20 anos

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Desde este mítico início até o presente momento, uma série de fatores colaboraram para que o mercado da cerveja artesanal não só crescesse nos Estados Unidos, como também reproduzisse sua dinâmica contemporânea em outros locais do planeta, incluindo países de tradição cervejeira europeia.

Abordando o tema, seguem abaixo 5 grandes motivos que têm permitido o mercado da cerveja artesanal crescer consistentemente em diversos pontos do mundo na atualidade.

1-Demanda do público por variedade

Consumidores em geral não valorizam apenas preço e qualidade de um produto, mas também variedade. O início do mercado de cervejas artesanais nos Estados Unidos ocorreu após um momento de dramática homogeneização do que era considerado cerveja, chegando a um produto que apelasse ao maior público possível em detrimento da variedade sensorial.

Dentro deste nicho de busca por variedade que o movimento craft americano se iniciou.

Um fator relacionado a isto foi a crescente valorização do público por produtos locais nos anos 1980, não se restringindo apenas a cerveja, mas passando por outros alimentos como queijo e café. Esta tendência resultou em movimentos como os “Mercados de produtores” e o Slow Food , por exemplo.

Toda esta mudança cultural levou consumidores a aumentar a sofisticação em seus hábitos de alimentação e conferir menor valor a produtos massificados, que acabou também por influenciar no consumo de cerveja.

O início destes nichos de consumidores, quando não há produtores locais, tende a ocorrer através de produtos importados.

2-Disponibilidade de renda

A cerveja artesanal é um produto naturalmente mais caro do que cervejas tradicionais. Desta forma não é surpreendente que pessoas com maior renda tenham mais probabilidade de consumir esse produto.

Geralmente posicionada com um preço superior a categoria de cervejas importadas, premium e super-premium , a cerveja artesanal se torna menos acessível para bebedores com menor renda ou que prefiram consumir volumes elevados.

Maior disponibilidade de renda não só estimula a compra de produtos mais caros, como também estimula a demanda por variedade não só por questões de mero consumo como também por expressão de estilo de vida.

No caso do Brasil, a ascensão do mercado artesanal durante um período de recessão econômica está totalmente ligado a se oferecer um tipo de produto até então inexistente no contexto nacional a uma faixa da população que ainda manteve sua renda preservada.

Desta forma, um ciclo de crescimento econômico que confira poder de compra a outros segmentos da população só tende a fortalecer o consumo de produtos disponíveis e diferenciados como a cervejas artesanais.

3-A ascensão das redes sociais

Ao se falar de pequenos produtores é fundamental destacar o a relevância das redes sociais como um meio de comunicação entre as pequenas empresas e seus consumidores

Este fator tem papel determinante na pulverização da cerveja artesanal nos últimos 10 anos.

Boa parte do domínio dos grandes oligopólios sobre o mercado de cerveja se dava por sua utilização de meios de comunicação de massa, que devido a sua escala permitiam moldar a percepção do consumidor em relação ao produto cerveja.

As redes sociais, por outro lado, permitem ações de marketing mais adequadas ao porte destas pequenas empresas além de fornecer uma possibilidade de comunicação direta entre produtor e consumidor.

4-A diversidade de significados que a cerveja pode assumir

A cerveja é um produto que consegue transitar entre o sofisticado e o popular, além de ter relações com uma gama de conteúdo histórico, científico, gastronômico e cultural.

Não a toa a incorporação de todos estes conteúdos permitem estabelecer diálogos com diferentes segmentos do público.

O movimento trazido pelo cenário da cerveja artesanal aproxima a bebida muito mais de um produto cultural do que apenas o consumo sem significado.

Conforme a curiosidade e conhecimento dos consumidores se desenvolve, a experiência de observar prateleiras com cerveja se assemelha a de pessoas que a tempos atrás iam a uma loja escolher um disco, baseado no seu estilo e artista favoritos

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5-As associações e confrarias de consumidores
Festival das confrarias de cervejeiros caseiros noRJ. Foto: Facebook do Festival das Confrarias

Em muitos países, associações de consumidores foram formadas de maneira a mobilizar os entusiastas da cerveja artesanal. O papel destas associações tem sido relevante ao contribuir para o desenvolvimento da cerveja artesanal ao menos por duas razões.

Em primeiro lugar, as associações estimulam a atividade de entrantes no segmento das cervejas artesanais, sustentando uma demanda por produtos de maior complexidade e promovendo a disseminação de conhecimento sobre o segmento entre seus pares e também para um público mais externo. Em segundo lugar algumas destas associações estimulam a produção de cerveja caseira, o que incentiva o início de experiência de muitos empreendedores deste mercado.

Mundialmente o melhor exemplo de associação de consumidores provavelmente é a CAMRA (The Campaign for the Real Ale) do Reino Unido que durante os anos 1970 iniciou uma luta contra a homogeneização do mercado de cerveja e pela manutenção de certas características tradicionais locais daquela cerveja.

No Brasil o mesmo ocorre, tendo como exemplos as ACERVAS (Associação de Cervejeiros Caseiros) presentes em diversos estados do Brasil e outras confrarias que periodicamente promovem encontros que estimulam a troca de informações e conhecimento entre seus participantes e acabam por formar um público sólido, disseminador e engajado pela cerveja artesanal.

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